Mercado

    O estado do mercado de AEO no Brasil em 2026: dados públicos, leitura honesta e janela de oportunidade

    Com base em dados da Pew, Gartner, Similarweb, Ahrefs e IAB Brasil, mapeamos o cenário real da transição para motores de resposta no país. O resultado mostra uma janela que se fecha em 18 meses.

    01 de abril de 2026 14 min de leituraPor Equipe Citability

    O Brasil ocupa, em 2026, uma posição incomum no mapa global de AEO. Somos o segundo ou terceiro maior mercado de ChatGPT do mundo em volume de acessos, segundo dados da Similarweb de 2025, e um dos países com adoção mais rápida de IA generativa entre consumidores. Ao mesmo tempo, somos um mercado ainda lento na adaptação institucional das empresas para essa mudança de comportamento. A combinação produz uma janela clássica de arbitragem: demanda do consumidor já migrou, oferta das marcas ainda está atrás, e quem se posicionar primeiro paga menos caro do que quem chegar em 2027.

    Este artigo sintetiza o que dá para afirmar com base em fontes públicas verificáveis. Não fabricamos números. Quando não temos dado brasileiro específico, sinalizamos isso e usamos a referência global mais próxima, explicando a limitação. Esse rigor é inegociável porque decisões de investimento baseadas em dado inventado produzem desastre trimestral.

    Adoção pelo consumidor: onde o Brasil já chegou

    Dados da Similarweb publicados em 2025 mostram que o Brasil figura consistentemente entre os cinco maiores países em acessos ao ChatGPT globalmente, com dezenas de milhões de visitas mensais. O subdomínio chatgpt.com é, em medições da Semrush e Similarweb, um dos 20 domínios mais acessados do país, em proximidade com grandes portais de notícias e serviços públicos. Essa escala não se traduz automaticamente em substituição de Google para todas as buscas, mas sinaliza que o comportamento de perguntar primeiro à IA já é habitual para uma fatia grande da população conectada.

    O Perplexity, por sua vez, tem volume muito menor no Brasil em termos absolutos, mas o perfil de usuário é desproporcionalmente qualificado: profissionais de tecnologia, consultores, gestores de marca, compradores B2B. Para decisões de compra em SaaS, serviços profissionais e tecnologia, a audiência do Perplexity no Brasil importa muito mais do que o volume absoluto sugere, porque é ali que está o decisor.

    Zero-click searches no Google: evolução recente (Similarweb, State of Search 2025)
    Maio 202456 % de buscas sem clique
    Maio 202569 % de buscas sem clique

    A previsão da Gartner e o que ela significa

    Em 19 de fevereiro de 2024, a Gartner publicou em seu newsroom uma previsão que virou referência em todas as apresentações de AEO desde então: até 2026, o volume de buscas em motores tradicionais cairia 25%, com o marketing de busca perdendo participação para chatbots de IA e outros agentes virtuais. Dois anos depois, os dados da Similarweb e da Pew indicam que a direção da previsão está correta, ainda que o ritmo exato varie por região.

    Para o Brasil, a previsão tem duas leituras importantes. Primeira: a queda prevista se refere a volume global, e o Brasil, por ter adoção rápida do ChatGPT, provavelmente está puxando a média, não ficando para trás. Segunda: quando a Gartner fala em perda de participação do marketing de busca, ela se refere tanto a volume orgânico quanto a mídia paga. Isso significa que o impacto sobre orçamentos de SEM pode ser mais rápido do que o esperado, liberando verba que pode, inteligentemente, ser reinvestida em AEO.

    Indicadores brasileiros que dá para cruzar

    Embora não exista ainda um estudo acadêmico brasileiro específico sobre maturidade em AEO comparável ao trabalho da Semrush nos EUA, alguns indicadores permitem leitura consistente. Dados do IAB Brasil no Digital AdSpend de 2024 e 2025 mostram que o investimento total em mídia digital continua crescendo, mas com desaceleração clara em search marketing tradicional e aceleração em novos canais de engajamento. A Kantar Ibope Media tem publicado indicadores de comportamento de busca que convergem para a mesma história: o consumidor brasileiro conectado combina busca tradicional e IA generativa, com peso crescente para a segunda.

    Em termos de presença de marcas brasileiras em LLMs, observação qualitativa de mercado mostra três padrões claros. Marcas de tecnologia nativa digital (especialmente unicórnios brasileiros consolidados) aparecem bem em ChatGPT e Perplexity para queries em português. Marcas tradicionais de varejo e serviços financeiros, com exceção das maiores, aparecem com frequência menor do que sua participação de mercado deveria justificar. E marcas B2B brasileiras de médio porte, em quase todos os setores, aparecem pouco, abrindo janela clara para quem se mover rápido.

    Quem já investe globalmente, para calibrar expectativa

    Pesquisas internacionais publicadas em 2025 pela Semrush e pela BrightEdge indicam que, entre empresas médias e grandes no hemisfério norte, algo entre 20% e 35% já tem iniciativa estruturada de AEO ou GEO, com concentração maior em SaaS B2B, saúde digital, educação e serviços financeiros. No Brasil, observação de mercado indica percentuais significativamente menores, provavelmente na faixa de um dígito para iniciativas realmente estruturadas, contra um grupo maior de empresas que fazem algo adjacente sem organizar como AEO.

    SetorMaturidade globalPor que lidera
    SaaS B2BAltaCiclo de consideração longo, consumidor técnico, ROI mensurável.
    Saúde digitalAltaBusca informacional intensa pré-consulta, regulação que força clareza.
    Educação superiorMédia-altaDecisão baseada em pesquisa, alta concorrência por reputação.
    FintechMédiaProduto comparável, consumidor comparador.
    Varejo físicoBaixaConsumidor compara mas compra por hábito ou conveniência.
    Indústria B2BBaixaJornada de compra off-line para grandes contratos.
    Setores com maior maturidade em AEO globalmente (síntese de Semrush, BrightEdge, 2025)

    O que está em jogo nos próximos 18 meses

    A janela de vantagem competitiva em AEO no Brasil tem prazo de validade. Modelos generativos têm uma propriedade incômoda para late adopters: uma vez que aprendem a associar uma categoria a determinadas marcas, essa associação fica difícil de quebrar. Quem se estabelece como referência nas respostas em 2026 e 2027 cria uma barreira de entrada que concorrentes precisarão pagar muito caro para tentar derrubar nos anos seguintes.

    Esse efeito é parente próximo do conceito de vantagem do primeiro em buscas que a Google documentou ao longo dos anos 2010: domínios que consolidaram autoridade cedo em um tema tendem a manter essa posição mesmo sob pressão competitiva intensa, porque novos sinais de autoridade competem contra anos de acúmulo. Em LLMs, o efeito é similar, mas com agravante: a IA não apenas lista, ela recomenda, e trocar a marca recomendada exige mais do que melhorar um SEO técnico.

    PerfilCenário em 2027Custo de recuperação
    Investe estruturadamente em 2026Liderança consolidada nas respostas do segmentoManutenção (baixo)
    Começa a investir no 2º semestre de 2026Posição competitiva intermediáriaAlto
    Começa em 2027Recuperação difícil, segundo ou terceiro lugarMuito alto
    Não investeInvisibilidade em boa parte das jornadas digitaisPróximo de irrecuperável sem mídia paga massiva
    Cenário projetado para 2027 conforme investimento em 2026

    Recomendações por perfil de empresa

    Para empresas que ainda não começaram

    Comece com diagnóstico nas próximas duas semanas. O custo de descobrir onde sua marca está hoje em LLMs é baixo, e o resultado costuma ser suficiente para destravar orçamento. Não tente justificar internamente sem dado, porque a discussão fica filosófica e o concorrente avança. O diagnóstico oferece um ponto de dor concreto e mensurável, que funciona muito melhor em comitê de investimento do que argumentação genérica sobre tendência.

    Para empresas em fase inicial

    Estabeleça três a cinco indicadores claros, conecte-os a uma cadência quinzenal de revisão e monte uma célula dedicada de duas pessoas. Tentar fazer AEO como tarefa adicional do time de SEO costuma travar pela diferença de mentalidade e pela sobrecarga do time existente. Uma célula pequena, dedicada e com foco em métricas de resultado tende a superar em consistência equipes maiores sem foco.

    Para empresas que já investem

    O próximo nível é diferenciação por verticalização. Marcas que dominam respostas genéricas começam a competir agora pelas perguntas mais específicas, longas e de alta intenção. Esse é o território onde a conversão acontece e onde o Share of LLM Voice se traduz mais diretamente em pipeline. Investimento em presença em fontes verticais altamente específicas do setor costuma ter ROI mais alto do que investimento adicional em fontes generalistas.

    Fontes públicas consultadas para esta análise: Pew Research Center sobre AI Overviews (julho de 2025), Gartner Press Release de 19 de fevereiro de 2024 sobre queda em buscas tradicionais, Similarweb State of Search Report 2025, Semrush AI Search Impact Study (julho de 2025), Ahrefs AI Traffic Research (2025), paper GEO de Princeton/IIT Delhi (arXiv 2311.09735), IAB Brasil Digital AdSpend 2024/2025 e Kantar Ibope Media. Todas essas fontes são verificáveis e estão acessíveis publicamente.

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